Sport Club do Recife - Não oficial

Ademir Menezes

 
Ademir Marques de Menezes, o Queixada, foi um dos mais extraordinarios artilheiros de todos os tempos. Seu estilo de jogo deu origem a uma nova posicao: PONTA-DE-LANÇA. Sua versatilidade em atuar em qualquer posicao do ataque e sua habilidade nas arrancadas a caminho do gol obrigaram tecnicos a adotarem novos sistemas para tentar contê-lo.

Alguns textos tendo como tema a carreira e a classe deste grande idolo do futebol brasileiro:

Um artilheiro no meu coração
Cronica de Armando Nogueira, publicada em O Globo na decada de 80

Grandes Ídolos: Ademir
Compilado de duas edicoes extras de Placar sobre o Vasco (abril de 1979 e 1983)

Relação dos títulos de Ademir




Um artilheiro no meu coracao
Armando Nogueira

Artigo publicado em O Globo na decada de 80

Se o futebol me quisesse dar um presente, bastava que me desse um domingo inteirinho so' de gols de Ademir Menezes. O estadio embandeirado, a multidao ali, em peso, todo mundo cantando e pulando pela gloria do artilheiro inesquecivel do Vasco da Gama.

Nesta tarde de lembrancas, quero rever, sobretudo, certos gols que ele fazia contra o meu time e que eu, doido de paixao, jurava que eram feitos pessoalmente contra mim. Quantas vezes amaldicoei os "rushes" de Ademir! Ele arrancava do meio campo, temivel, e, como um raio, entrava pela grande area, fulminante. O desfecho da jogada era sempre o mesmo: uma bola no fundo da rede, um goleiro desvalido e o meu coracao magoado.

Era assim que terminavam os meus domingos em tarde de Ademir.

Ate' entao, eu nao tinha vivido bastante para perceber que Ademir era um belo artista e que o gol, longe de ser um infortunio, e' apenas uma graca que o futebol oferece para fazer festa no coracao dos homens.

Hoje - coisas do tempo - que o futebol na minha vida e' mais saudade que esperanca, mestre Ademir costuma aparecer no telao das minhas insonias mais artilheiro do que nunca. E com que alegria revejo, agora, aqueles gols arrebatadores que ele fazia com a veemencia de um predestinado! Gols que ontem sangravam e que hoje so' enternecem o meu coracao.

Ademir guardava em campo o rigor de um espartano e a retidao de um cavalheiro. Nunca perdeu a esportiva. Se alguem lhe dava um pontape', ele dava, de volta, a outra face: jogava como um cristao. O futebol era a sua religiao. Ademir era alto, fino de corpo, tinha as pernas alinhadas e do rosto, que parecia feito a mao, sobrava-lhe um pedaco de queixo. Daí vem o apelido de "Queixada", como ternamente o tratam até hoje os seus amigos.

Fecho os meus olhos saudosos para reencontrar Ademir Marques de Menezes, heroi dos estadios nos anos romanticos do nosso futebol.

E' dia de classico. O estadio esta' em pe' de guerra. Ademir recebe a bola no meio do campo e dispara. Na crista do corpo que corre, em aceleracao vertiginosa, a lamina do queixo vai cortando, certeira, o campo minado, o caminho do gol: e' gol! Ele nao para de correr e atravessa a linha de fundo, epico, com os bracos abertos ao delirio da multidao.

Se eu soubesse que um dia o futebol dele ia se acabar, eu teria pedido a Deus que me emprestasse um par de olhos cruz-de-malta so' para que eu pudesse ver, a luz do amor, todos os gols que Ademir fazia contra mim.

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Grandes Idolos: Ademir

Compilado de duas edicoes extras de Placar (abril de 1979 e 1983)

Na decisao do Campeonato Carioca de 1950, a torcida do Vasco praticamente lotava a arquibancada do Maracana. Ao final do jogo contra o America, ela comecou a cantar, com uma letra inventada na hora, o grande sucesso do Carnaval daquele ano: "Oi zum-zum-zum zum-zum-zum-zum/Vasco dois a um/Ademir pegou a bola/e desapareceu/de um chute tao forte que Osni nao defendeu". Era, na opiniao de Ademir Marques Menezes, a maior homenagem que recebera em toda a sua vida de jogador.

Vida que comecou nas peladas com bola de meia na praia do Pina, no Recife, onde nasceu a 8 de novembro de 1922, na Vila de Bico do Mocotolombo', filho do casal pernambucano Antonio Rodrigues Menezes e D. Otilia Menezes. O pai era vendedor de automoveis e diretor de remo do Sport Clube Recife, onde Ademir iniciou a carreira no infanto-juvenil. Em 1941, Ademir tornava-se tricampeao pernambucano pelo Sport. No ano seguinte, quando a Selecao Pernambucana estava no Rio de Janeiro - e com ela nove dos onze titulares do Sport -, o presidente do clube resolveu mandar mais alguns jogadores do Recife e dar inicio a uma excursao. Essa excursao do Sport ficou na historia do futebol pernambucano. O Sport, jogando no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Sao Paulo, Curitiba, Porto Alegre e novamente Rio, perdeu quatro jogos, empatou dois e, pasmem, ganhou dez. Marcou 46 gols, sofreu 29.

O namoro entre o Vasco e Ademir comecou no dia primeiro de marco de 1942, quando o Sport, de volta do Sul, jogava outra vez no Rio de Janeiro, contra o Vasco. O Vasco tinha comecado bem, vencia por 3 a 0, gols de Villadoniga(2) e Nino. Mas nao contava com os "rushes" de um rapaz magro, cabelo repartido do lado e puxado para tras.

Foi assim, lancado em alta velocidade, que Ademir, aos 30 minutos do primeiro tempo, marcou o gol do Sport. Mal comecava o segundo tempo, com 2 minutos, Valfredo diminuia. Ai' se desenhou aquela avassaladora vocacao para o gol. Em pouco mais de um minuto - aos 6 e aos 7 - Ademir, em duas jogadas sensacionais, conseguiu virar o jogo. Aos 18, Nino voltou a empatar. Mas, em outra jogada de Ademir, Piromba', aos 27, marcou o gol da espetacular vitoria do Sport por 5 a 4.

Depois do jogo, diretores do Vasco procuraram o velho "coronel" Menezes, pai de Ademir. Iniciavam-se as negociacoes para a compra do seu passe. Ademir foi o primeiro profissinal a exigir luvas - 40 contos. Mas seu passe custou apenas 800 mil-reis.

O Vasco ja' havia comprado os passes dos Tres Patetas  - o trio atacante do Madureira, formado por Lele', Isaias e Jair da Rosa Pinto, o Jaja' de Barra Mansa. Com a compra de Ademir e Djalma, tambem do Sport, o Vasco ia superar mais uma de suas muitas crises. E montava, ao mesmo tempo, o supertime que passou a historia como o "Expresso da Vitoria".

Em 1945, ano que marca a partida do fabuloso Expresso, Ademir era o titular do Vasco e de todas as selecoes cariocas ou brasileiras que se formaram a partir dai'. A linha do Vasco em 1945 era algo de espantar: Djalma, Lele', Ademir, Jair e Chico.

Em 1946, numa de suas mais celebres tiradas, Gentil Cardoso, tecnico contratado do Fluminense, disse:

-- Me deem o Ademir, e eu lhes darei o campeonato.

Gracas a Ademir, o Queixada, Gentil cumpriu a palavra.

Ademir recorda o seu primeiro jogo, contra o Vasco. Alem de uma vaia arrasadora, a social vascaina comecou a gritar: "Papai, papai". Era a alusao ao velho coronel Menezes, encarregado de supervisionar os contratos do filho.

Logo no inicio do jogo, Ademir recebeu o lancamento de outro pernambucano, Orlando Pingo-de-Ouro, e iniciou o rush, para bater inteiramente a defesa do Vasco. Cara a cara com Barbosa, em vez de chutar como era seu costume, driblou o goleiro e entrou no gol com bola e tudo. Com esta (1 a 0) e outras vitorias, o Fluminense acabou sendo o campeao de 1946. Ademir tembem marcou o gol unico da decisao contra o Botafogo.

Mas essa passagem pelo tricolor - nada mais que momentaneo abandono do reduto de Sao Januario - nao deu para marcar. O que marcou, inclusive no retorno glorioso, foi a carreira no Vasco. Somavam-se os titulos. Em 1945, fora campeao invicto e vencedor dos torneios Inicio e Municipal. Em 1948, campeao dos campeoes sul-americanos, vencedor do Inicio e do Municipal. Em 1949, campeao carioca invicto, campeao sul-americano, artilheiro do Brasil. Em 1950, vice-campeao do mundo, artilheiro da Copa, campeao(bi) carioca. Foi o artilheiro dos campeonatos cariocas de 49 e 50, com 30 e 25 gols, respectivamente. Em 1952, campeao carioca e campeao pan-americano. Ademir marcou mais de 400 gols em 552 jogos.

A popularidade de Ademir era tao grande que, no Brasil inteiro, criancas comecaram a receber seu nome.

Uma historinha conta isso melhor. Em 1950, quando a Selecao Brasileira ainda estava concentrada na Casa das Pedras, no Alto da Boa Vista, um pai aflito pediu a Flavio Costa que liberasse Ademir. Seu filho - explicou - tinha que sofrer uma operacao delicada, e cismava de so' entrar na sala de cirurgia acompanhado de Ademir. Flavio concordou, la' foi Ademir. Na saida o medico informava a Ademir que o garoto estava salvo. Anos depois, Ademir convertido no comentarista de radio famoso, um rapaz de seus 30 anos o segura pelo braco. Apresenta-se: era o menino que o Queixada ajudou a salvar.

No final de 1955, Ademir sentiu que devia parar. Queria retirar-se ainda como idolo - mas os diretores do Vasco nao concordaram. Foi entao para o Sport, onde iniciara a carreira. E reverteu ao amadorismo, jogando algumas partidas em 1956. Seu ultimo jogo foi contra o Bahia - o Sport perdeu de 2 a 0.

Penduradas as chuteiras, tentou ser tecnico de futebol no Vasco. Nao deu certo. O clube pensava mais em politica do que em bola.

Passou entao a escrever cronicas na imprensa carioca, a comentar jogos pelo radio. Hoje, alem de jornalista-radialista, Ademir Marques Menezes é funcionário do Instituto Brasileiro do Café. E aguarda mais uma aposentadoria.

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Relação dos titulos de Ademir

1937/38 - Bicampeao juvenil pernambucano pelo Sport Club Recife

1939/40/41 - Tricampeao pernambucano pelo Sport Club Recife

1943/44 - Bicampeao brasileiro pela Selecao Carioca

1945 - Campeao carioca invicto pelo Vasco da Gama

1946 - Campeao brasileiro pela Selecao Carioca

1946 - Supercampeao carioca pelo Fluminense

1948 - Campeao sul-americano de campeoes pelo Vasco da Gama

1949 - Campeao carioca invicto pelo Vasco da Gama e artilheiro do campeonato

1949 - Campeao sul-americano pela Selecao Brasileira

1950 - Campeao brasileiro pela Selecao Carioca

1950 - Vencedor da Copa Rio Branco pela Selecao Brasileira

1950 - Vencedor da Copa Oswaldo Cruz pela Selecao Brasileira

1950 - Vice-campeao mundial pela Selecao Brasileira

1950 - Campeao carioca (bi) pelo Vasco da Gama e artilheiro do campeonato

1952 - Campeao Pan-Americano pela Selecao Brasileira

1952 - Campeao carioca pelo Vasco da Gama

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