O
texto a seguir é parte de uma homenagem feita pela família de
Mavis.
Maria Rejane Cerqueira Leite nasceu em
Caruaru no dia 17 de março de 1958, numa família unida e harmoniosa.
Em 1971, se transfere com a sua família
para Igarassu, perto de Recife, para ajudar na construção do
Centro Mariápolis, Santa Maria, do Movimento Focolare, do qual a família
faz parte. Naquele ano Chiara, fundadora do Movimento dos Focolares, lhe deu
o nome novo MAVIS , que quer dizer "vivendo como Maria". Um nome
que ela adotou a partir de então.
Deixamos que ela mesma narre a maravilhosa
aventura da sua vida através de alguns escrito seus:
Em dezembro de 1999 escreve:
"Aprendi e estou aprendendo muito com
toda esta história, é um lento processo de transformação.
Me sinto como a lagarta dentro do casulo em metamorfose para ser uma borboleta.
Ainda não sei quem serei, sei que meu coração está
abrindo ainda mais para o amor incondicional e o serviço à humanidade.
Sinto-me sendo preparada para uma nova
missão, e no momento exato Ele me mostrará. Agora é um
momento de paciência, entrega, desapego e muita luz."
Em abril de 2001, quando o câncer começou
a se manifestar com mais força escreve:
"Viver 43 anos para chegar ao centro
de si mesmo. Parece muito tempo, mas está sendo um tempo justo. Esse
não é um caminho curto, não é um caminho direto,
não é uma pista de alta velocidade. É uma trilha de estrada
de barro, precipícios, alagados, lagos e montanhas maravilhosos, praias
desertas e fascinantes, pântanos escuros e fantasmagóricos...
trilhas solitárias, trilhas coletivas... companheiros agradáveis,
companheiros desafiantes...
É a minha grande aventura nesta
terra! É como toda aventura cheia de perigos, riscos, conquistas, descobertas
e muita alegria.
Nada foi, nem é, e nunca será
em vão.
Parece tudo milimetricamente traçado
e planejado pela minha alma desejosa por aprender e chegar ao final do caminho
feliz e inteira."
"O trecho do meu caminho atualmente
é um grande espelho de água em todo seu comprimento, acima,
abaixo, aos lados. Em qualquer direção que os meus olhos fitam
sempre vejo a mim mesma. Em imagens ampliadas, radiografadas, denunciantes...
São revelados os meus disfarces, caem por terra as minhas máscaras,
vejo se dissolverem todas as auto-imagens limitantes."
"Meu corpo está febril, dolorido...
dói deixar cair a casca, a pele fica muito fina. Estou assim, extremamente
sensível, vulnerável. Preciso deste tempo "doente"
para dar tempo ao meu corpo de se recuperar e entrar no novo padrão.
Se a alma está se transformando o corpo precisa se adaptar, se preparar
para guardar um ser renovado, para vibrar em um novo padrão. Certamente
mais luminoso e mais humano."
"Hoje me acordei feliz com toda
esta situação. Encontrei dentro de mim uma imensa gratidão
pelo rumo que minha vida tomou. Nestes dois anos, quanto aprendizado, quantas
mudanças, quanto eu me conheci. Tive que reconhecer mágoas,
perdoar ressentimentos, dissolver julgamentos. Tive que reconhecer que jamais
posso acusar ou culpar alguém. Em qualquer situação,
eu sempre tenho a minha parcela de responsabilidade. Vou criando sempre as
situações que necessito para o meu aprendizado.
Acho que devo mesmo é agradecer
às pessoas que servem como meus professores. Como aprender a amar e
perdoar se não existe quem nos provoque, quem nos magoe, quem nos desconsidere?
E quanto eu já não causei de dor nas pessoas, mesmo sem nenhuma
intenção?
Eu perdôo a mim, eu perdôo
a todos.
Quero continuar fazendo todo o meu
aprendizado com amor, alegria, tranqüilidade e harmonia."
Este ultimo período passados no
hospital foi para Mavis uma escalada no seu caminho de aprendizado. É
impossível contar tudo aqui, o tempo seria longo demais. Porém
queremos percorrer com ela, através de algumas frases, esta caminhada
neste aprendizado definitivo em direção à morte que ela
via como momento de transformação para outra vida.
"Hoje me sinto feliz, muito
feliz!!!
Esta noite chegaram as dores, procurei
oferecer tudo! A um certo momento não conseguia mais oferecer, então
pensei em dar nomes a estas dores: esta é por fulano, esta é
por aquele outro e assim por diante, no final tinha uma lista enorme de pessoas
por quem oferecer."
"Nestes dias estava pensando
no que eu podia dar às pessoas, eu aqui imóvel nesta cama...
E cheguei à conclusão de que eu podia dar aos outros a oportunidade
de me amarem."
Estou firme e forte..."
"Hoje escolhi uma
frase para viver: confiar e entregar..."
Em maio resume a sua vida em um escrito, que para nós fica como o seu testamento:
"Estava
pensando sobre o aprendizado de amor que viemos fazer neste planeta. Esta
é mesmo a escola do amor!
Pensava que a primeira
lição devesse ser sobre o amor a nós mesmos. E por incrível
que pareça esta é lição que mais demoramos a fazer.
Para mim ela está sendo uma das últimas.Os anos que vivi no
Movimento dos Focolares (23 anos) me ensinaram muito, não poderia ter
dispensado esta etapa da minha vida, ela foi marcante em minha vida, ajudou-me
a desenvolver ao máximo minha capacidade de doação, meu
amor pela humanidade, pelo próximo.
Os anos vividos na Ilha Santa Terezinha
(13 anos) me ensinaram sobre o amor aos pobres, às crianças.
Ensinaram-me, sobretudo, o amor incondicional, amar sem esperar retorno. Lá
comecei a descobrir como era difícil amar incondicionalmente, como
temos sempre alguma intenção escondida nas nossas ações,
nem que seja o reconhecimento do quanto somos bons, a admiração
dos outros, etc...
Precisava vir o câncer para
me ensinar a olhar para mim, a me aceitar com erros e acertos, cuidar de mim,
aceitar meus sentimentos e emoções e trabalhar cada uma para
que se transforme.
Estou aprendendo isso: amar minha fragilidade,
minha condição de doente, minha solidão, meus medos,
minha coragem, tudo em mim.
Creio que esse amor por mim mesma
vai me ajudar ainda mais a amar os outros.
Agora não tenho muitas forças
para amar os outros, minha energia está dando só pra mim, mas,
tudo passa, e certamente eu terei forças e disposição
para amar a todos incondicionalmente."
As 17:35 h do dia 26 de outubro
de 2001, Mavis morre. Completa-se assim o seu "aprendizado de amor"!
Nos
nossos corações existe uma gratidão infinita:
A Deus por nos ter dado Mavis.
A Mavis pelo precioso dom que foi e é
para nós.
O Grupo AdoleScER - Saúde,
Educação e Cidadania, junta-se a sua família neste sentimento
de profunda gratidão. Mavis foi sócio-fundadora desta ONG, e,
apesar de já estar com câncer, ela dedicou-se intensamente à
construção deste trabalho. Baseado na sua larga experiência
com trabalhos educativos em comunidades carentes, ela contribuiu fortemente
para definir os objetivos da nossa entidade e ajudou a dar o perfil característico
às atividades realizadas com os adolescentes que fazem parte deste
projeto de Formação de AMINs.
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Oficinas
que Mavis criou para o
Grupo AdoleScER:
"Só
quem nos evoca um sentimento
profundo é que deixa marcas indeléveis na alma e
permanece definitivamente"
(Leonardo Boff)